terça-feira, 29 de outubro de 2024

QUAIS SÃO AS CARTAS DE PAULO?


 

QUAIS SÃO AS CARTAS DE PAULO?

As Cartas de Paulo são: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom. Essas treze cartas são conhecidas como Epístolas Paulinas.

As treze cartas de Paulo fazem do apóstolo o maior escritor do Novo Testamento. Durante muito tempo Paulo também foi considerado o escritor da Carta aos Hebreus. Inclusive, traduções antigas do texto bíblico trazem a designação “Carta de Paulo aos Hebreus”.

Mas pela falta de fundamentos consistentes, e à luz de uma análise mais cuidadosa do texto de Hebreus, tem sido amplamente aceito que o autor da epístola não é Paulo de Tarso. O mais provável é que o escritor tenha sido um líder cristão desconhecido que provavelmente foi discipulado por algum apóstolo.

AS CARTAS DE PAULO FALAM SOBRE O QUÊ?

As cartas de Paulo falam sobre questões centrais da Fé Cristã. Divinamente inspiradas pelo Espírito Santo, essas cartas trazem instruções teológicas indispensáveis à Doutrina Cristã. Elas instruem os cristãos quando: a natureza de Deus; o significado do ministério e obra de Cristo; o ministério do Espírito Santo na Igreja; a doutrina da salvação; a doutrina dos acontecimentos que se darão no final dos tempos; o caráter cristão e a aplicação da vontade de Deus na vida prática dos crentes; a ordem no culto; o governo da Igreja; etc.

Muitos estudiosos classificam as cartas de Paulo em quatro categorias com base no conteúdo das cartas ou na ocasião quem foram escritas. São elas:

CARTAS ESCATOLÓGICAS: 1 e 2 Tessalonicenses.

CARTAS SOTERIOLÓGICAS: Romanos, 1 e 2 Coríntios e Gálatas.

CARTAS DA PRISÃO: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom.

CARTAS PASTORAIS: 1 e 2 Timóteo e Tito (embora a carta de 2 Timóteo também tenha sido escrita enquanto Paulo estava preso).

QUANDO AS CARTAS PAULINAS FORAM ESCRITAS?

As Cartas de Paulo foram escritas ao longo do frutífero ministério do apóstolo. Por isso não é tão fácil determinar quando exatamente as cartas de Paulo foram escritas. Para tanto seria preciso ter muitos detalhes sobre a cronologia do ministério do apóstolo.

Mas uma comparação entre o livro de Atos dos Apóstolos e as Epístolas Paulinas fornece informações preciosas que nos auxiliam, pelo menos em termos gerais, a ter uma ideia de quando as cartas de Paulo foram escritas.

GÁLATAS

Nenhuma das Epístolas Paulinas foi escrita durante o início de seu ministério na Cilícia e na Síria (Ato 9:30; 11:25,26). Isso significa que todas as cartas de Paulo foram escritas após o final da década de 40 d.C., quando ele foi comissionado como missionário pela igreja de Antioquia.

Juntamente com Barnabé, Paulo fez sua primeira viagem missionária. Durante essa viagem ele visitou a Ilha de Chipre e várias cidades da província da Galácia (Atos 13-14). Muitos estudiosos consideram que foi justamente ao voltar para Antioquia que Paulo escreveu a Carta aos Gálatas. Seu objetivo era combater a influência dos judaizantes que tentavam impor tradições judaicas aos cristãos gentios.

1 E 2 TESSALONICENSES

Algum tempo depois, entre os anos de 50 e 52 d.C., Paulo saiu em sua segunda viagem missionária. Dessa vez ele foi acompanhado por Silas. Durante essa viagem ele recrutou Timóteo. Além disso, com sua evangelização ele alcançou até o continente europeu, fundando as igrejas de Filipos, Tessalônica e Corinto (Atos 15:36-18:22).

Então o apóstolo ficou um ano e meio em Corinto. Durante esse tempo ele escreveu as cartas de 1 e 2 Tessalonicenses como forma de encorajamento aos cristãos que estavam sendo perseguidos.

1 E 2 CORÍNTIOS E ROMANOS

Mais tarde Paulo fez sua terceira viagem missionária. Além de voltar à Galácia, nessa viagem o apóstolo ficou um longo tempo em Éfeso. Enquanto estava em Éfeso, Paulo foi avisado dos graves problemas que ameaçavam a igreja de Corinto. Foi então que provavelmente ele escreveu a carta de 1 Coríntios.

Ainda em sua terceira viagem missionária, Paulo seguiu para o norte. Provavelmente enquanto passava pela Macedônia, o apóstolo recebeu boas notícias sobre o arrependimento dos crentes coríntios, e como resposta ele escreveu e enviou a carta de 2 Coríntios. Mais tarde, parece que ele foi pessoalmente visitar Corinto. Os intérpretes dizem que de Corinto Paulo teria escrito a Carta aos Romanos.

EFÉSIOS, FILIPENSES, COLOSSENSES E FILEMOM

Depois de três meses que estava na Grécia, o apóstolo resolveu voltar à Judeia. Nesse contexto houve uma revolta popular em Jerusalém que culminou na prisão de Paulo em Cesareia por dois anos (Atos 20:1-24:27).

Por ser cidadão romano, Paulo solicitou uma audiência com o imperador. Então ele foi transferido para Roma onde aguardou por cerca de mais dois anos até que seu pedido fosse atendido (Atos 27:1-28:31).

Foi durante esse cárcere em Roma, entre o final da década de 50 d.C. e o início da década de 60 d.C., que provavelmente foram escritas as cartas de Paulo aos Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Por isso essas cartas são chamadas de “epístolas da prisão”. Alguns comentaristas sugerem que pelo menos uma dessas cartas talvez tenha sido escrita durante o tempo de prisão em Cesareia.

1 TIMÓTEO, TITO E 2 TIMÓTEO

O texto bíblico não explica exatamente o aconteceu com Paulo após sua prisão em Roma registrada no final do livro de Atos dos Apóstolos. Mas provavelmente ele foi libertado e talvez ainda tenha saído numa nova viagem missionária. Inclusive, pode ser que ele tenha conseguido chegar até a Espanha e depois visitado as cidades da região do mar Egeu (cf. Romanos 15:24; 1 Timóteo 1:3; Tito 1:5; 3:12).

Se isto estiver correto, então é possível que as chamadas cartas pastorais tenham sido escritas durante esse período final de seu ministério. Primeiro ele teria escrito as cartas de 1 Timóteo e Tito. Depois, já encarcerado novamente em Roma na metade da década de 60 d.C. conforme afirma a tradição, ele teria escrito 2 Timóteo pouco antes de ser executado (cf. 2 Timóteo 4:6-18).

Certo é que, depois de vislumbrar tamanha dedicação do apóstolo à causa do Evangelho, facilmente podemos entender a conclusão que ele próprio fez acerca de sua vida e ministério ao dizer: “Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé” (2 Timóteo 4:7).

EXISTEM OUTRAS CARTAS DE PAULO?

Paulo era uma pessoa extremamente ativa e dedicada à obra de Deus, e sempre estava envolvido com propagação do Evangelho e com o zelo pela pureza das doutrinas centrais da Fé Cristã. Então é certo que o apóstolo Paulo tenha escrito outras cartas, mas essas cartas não existem mais.

O próprio Paulo menciona duas dessas cartas perdidas. Uma delas seria uma provável epístola dirigida aos laodicenses (Colossenses 4:16). Parece que a epístola à igreja de Laodiceia também deveria ser repassada à igreja de Colossos, bem como a Carta aos Colossenses igualmente deveria ser lida em Laodiceia.

A outra carta foi escrita aos cristãos de Corinto antes de o apóstolo ter lhes escrito 1 Coríntios. Parece que o conteúdo principal dessa carta era uma exortação para que os crentes coríntios se apartassem de cristãos nominais que continuavam praticando imoralidades (1 Coríntios 5:9).

Por algum motivo Deus não permitiu que essas cartas de Paulo chegassem até nós. Mas devemos ficar satisfeitos porque tudo o que precisávamos saber está preservado de forma completa e inerrante no Cânon Bíblico. Inclusive, do próprio Paulo, Deus permitiu que treze de suas cartas fossem preservadas para servir de bênção para os cristãos de todos os lugares e de todas as gerações.

 

Daniel Conegero

GRANDES CONCEITOS PAULINOS

 

GRANDES CONCEITOS PAULINOS

O conhecimento que o Apóstolo Paulo oferece é o conhecimento da fé. O logos de Paulo é digno de fé, Pistós hó logos, 1Tm 1, 15. Esta palavra digna de fé nasce do próprio Deus, que inaugura o conhecimento por tradição. “Na mente de Paulo o cristianismo ultrapassa de longe qualquer sistema filosófico, ético ou especulativo. Em outras palavras, não se trata de conhecimento humano, gnôsis, mas de conhecimento sobrenatural, epígnosis, termo típico de Paulo, que aparece quinze vezes em seus escritos. Seja do modo que for, o conhecimento natural não fica excluído, conforme a passagem de 1Cor 11, 14, onde se lê: “ensina a natureza…”.

A terminologia antropológica de Paulo é de origem hebraica. Entretanto, se compararmos alguns termos típicos da teologia paulina a esse respeito com a terminologia grega, podem-se descobrir alguns aspectos do helenismo. Carne, sárx, não é uma parte do homem, mas o corpo inteiro, o homem inteiro do ponto de vista de sua existência física, de suas fraquezas e mortalidade em contraste com Deus. O termo sôma, corpo, menos frequente, é quase o mesmo que o anterior. Quanto à psiché, alma, não se pretende indicar a alma no sentido grego, já que nunca é distinta do conceito de sôma, pois indica a vida do homem. Pnêuma, espírito, raramente indica a parte intelectual humana, pois a tradição da Septuaginta já o tinha consagrado no sentido de sopro, alento etc. Noûs,intelecto, espírito, não tem equivalente em hebraico e é certamente graças à sua formação helenística que Paulo o adota, e tem o sentido de juízo, inteligência, decisão. É alheio ao sobrenatural, enquanto que o termo anterior guarda essa característica. Uma passagem serve de modo especial para caracterizar a condição humana de um ponto de vista que hoje poderíamos chamar de psicológico. É a passagem de Rm 7, 14-25:

Sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Ora se faço o que não quero reconheço que a Lei é boa. Na realidade não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim. Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não, porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora se faço o que não quero, já não sou eu que ajo, e sim o pecado que habita em mim.

Verifico, pois, esta lei: quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Comprazo-me na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros.

Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso. Assim, pois, sou eu mesmo que pela razão sirvo à lei de Deus e pela carne à lei do pecado.

O pecado, hamartía, recebe uma elaboração completa em Paulo. Em poucas palavras, o que não procede da fé como princípio de ação é pecado: Rm 14, 23. Estes são elementos de tanto da ética cristã como da mais original antropologia filosófica desenvolvida pelos Padres nos primeiros séculos do Cristianismo e, mais tarde, por via mais indireta, num caso e outro, na tradição escolástica.

No que se refere a Deus, a assim chamada prova cosmológica, que está unida à prova moral da existência de Deus em Romanos 2, aparece especialmente nos versículos 14-15: “Quando então os gentios, não tendo lei, fazem naturalmente o que é prescrito pela Lei, eles, não tendo lei, para si mesmos são Lei; eles mostram a obra da lei gravada em seus corações, dando disto testemunho sua consciência e seus pensamentos”.

O termo grego, eleuthería, liberdade, tem, na tradição grega, sentido distinto do que assume no pensamento paulino. Enquanto que, na tradição grega, o conceito se relaciona com a razão, no cristianismo nascente, a liberdade está ancorada na ação de Deus sobre o homem. Une-se a este, o termo sophía, sabedoria. Trata-se aqui da sabedoria prática, termo próximo ao conceito de santidade. Paulo confronta a sabedoria mundana com a sabedoria cristã. A propósito, eis a passagem de 1Cor 3, 18-19: “ninguém se iluda: se alguém dentre vós julga ser sábio aos olhos deste mundo, torne-se louco para ser sábio, pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”. E qual é a sabedoria de Deus? Esta é a parte central e inspiradora de toda e qualquer filosofia cristã que se desenvolveu no Ocidente. Trata-se do esquema que se segue, presente em Empédocles, parcialmente em Platão e Aristóteles, e retomado pelos epicuristas e estoicos, para explicar a origem do prazer: a kénosis, esvaziamento, privação, de um dos elementos vitais do corpo conduz a um desequilíbrio e o sofrido sentido de falta, endéia, o que gera a epithymía, desejo, e o impulso para o preenchimento, para a plenitude a anaplérosis. Ao se atingir este estado, chega-se ao prazer, pois se alcança o equilíbrio do corpo.

É certo que não se pode fazer a passagem imediata desse esquema helênico para o famoso hino de Filipenses: “Ele, estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a condição de escravo… Por isso Deus soberanamente o elevou…” O termo kénosis é, como se viu, de grande tradição filosófica. No esquema seguido por São Paulo, predomina a estrutura do profeta Isaías, do servo que é exaltado, glorificado por Deus. Por outro lado, a riqueza semântica da expressão, a profundidade do que ela significa dentro da mensagem cristã, compagina-se com tudo o que Paulo prega, especialmente em relação à sabedoria-loucura dos cristãos. Do ponto de vista metafísico, constitui-se a ontocristologia.

Se, por ontoteologia, se entende, na tradição filosófica mais recente, a metafísica que pensa os entes a partir do ser de Deus, ou ainda, que pensa o próprio Ser como Deus, esta não é a ontologia desenvolvida por filósofos cristãos. A filosofia cristã é ontocristologia, porque, embora a nome de Deus seja o Próprio Ser Subsistente, não se trata da aplicação de um conceito filosófico a Deus. Aliás, o nome de Deus é impronunciável e, a fortiori, dele não se pode ter conceito algum. Por isso mesmo, essas noções pertencem mais à filosofia, à cultura cristã do que à própria revelação bíblica. Para a tradição filosófica cristã, é sempre Jesus Cristo o referencial de suas meditações. É ele a sabedoria cristã. Não é, pois, a partir do conceito abstrato de Deus que se concebe a filosofia que, eventualmente, poderia conduzir ao cristianismo. O contrário é que é a verdade: o cristão encontrou na filosofia o lugar mais sublime entre as coisas humanas para inserir a figura de Jesus Cristo, através dos conceitos e métodos que lhe são apropriados.

A partir da doutrina de Paulo, as possibilidades e as características de uma nova metafísica devem ser desenvolvidas a partir do tema da aventura humana da perda. Nesta ordem de coisas, a abstração é entendida como ascese. O processo abstrativo é processo de separação, é o primeiro processo de humanização do homem. É o caminho da kénosis. O esvaziamento do humano é o esvaziamento do totalizante, da razão instrumental. É tendência para o intuitivo, que se dá na transcendência do outro, do desvelamento da transcendência. A kénosis é o conteúdo último da moral e do homem de valor, porque é atitude do amor.

Clemente de Alexandria, seguido por Agostinho e pela patrística em geral, segue a filosofia da kénosis. A tese principal de Clemente faz apelo à cultura clássica, ao defender que à filosofia antiga coube a tarefa pedagógica de encaminhar os gentios para Cristo, como a Lei servira para conduzir os judeus a ele:

Vem, pois, ó insensato, e não mais com o tirso na mão, nem coroado de hera! Larga tua mitra, deixa tua pele de cabra e retoma a razão! Eu te mostrarei o Logos e os mistérios do Logos, valendo-me de tuas próprias imagens[5].

Enfim, ao tratar do conhecimento humano, do homem e de sua liberdade, de Deus e sua natureza, Paulo introduziu conceitos fundamentais na cultura ocidental que, por via direta ou indireta, serão referências constantes da filosofia até o tempo presente.

Carlos Frederico Gurgel Calvet da Silveira