RECIPROCIDADE: BONS E MAUS USOS
A regra da reciprocidade exerce grande influĂȘncia sobre nosso comportamento. E, nem sempre, ela nos guia de forma inteligente. Descubra o porquĂȘ.
O princĂpio da reciprocidade exerce imensa influĂȘncia em nosso comportamento social.
Pouco pensamos a respeito, pois a prĂĄtica estĂĄ tĂŁo introjetada em nossa conduta que nos soa natural.
De certa forma, essa percepção estå correta.
Conforme o arqueĂłlogo Richard Leakey, o conceito de humanidade surge, precisamente, quando nossos antepassados aprenderam a compartilhar comida e habilidades.
O sistema de trocas de favores permitiu que as primeiras comunidades se desenvolvessem, numa rede de interdependĂȘncia que beneficiava a todos.
Afinal, quando alguém concede aquilo que pode ou sabe fazer, compreendendo que tal entrega resultarå numa futura devolutiva, as vantagens são claras.
NĂŁo terĂamos sobrevivido sem esse “acordo diplomĂĄtico”. E ele Ă© tĂŁo funcional que continua como base de nossas interaçÔes.
VocĂȘ consegue perceber situaçÔes nas quais a regra da reciprocidade orienta suas atitudes?
SerĂĄ que o impulso de ser recĂproco jĂĄ o fez agir de modo nĂŁo racional?
Saberia identificar momentos nos quais a necessidade de retribuir se transforma em uma “armadilha” para suas açÔes?
Nunca havia considerado a norma da reciprocidade como elemento determinante em suas decisÔes?
Então é hora de dar mais atenção ao assunto!
Por que a regra da reciprocidade funciona
Quando alguĂ©m nos faz uma gentileza, um agrado, um favor — enfim, nos promove qualquer espĂ©cie de ganho —, nos sentimos impelidos a retribuir o prĂ©stimo. Ainda que seja de forma mĂnima, como a simples pronĂșncia de uma palavra: “obrigado”.
Note que a palavra que usamos, tradicionalmente, para agradecer Ă©, na verdade, uma expressĂŁo de comprometimento. Assumimos que estamos em dĂvida e “obrigados” a oferecer uma compensação.
Aquele que nos auxilia merece uma atitude equivalente. Essa regra moral, nĂŁo escrita ou padronizada, favorece a cortesia e o equilĂbrio saudĂĄvel nas relaçÔes sociais.
Dito de outra forma: a reciprocidade favorece a colaboração entre os seres humanos. Possibilita a generosidade na partilha de conhecimentos, bens materiais e disposição positiva, frente às necessidades alheias.
Em função das clĂĄusulas implĂcitas desse “contrato”, adotamos posturas altruĂstas, com certa facilidade.
Podemos nĂŁo nos dar conta, mas repetimos a sabedoria que herdamos de nossos ancestrais. Ajudamos o outro, nos doamos, somos agradĂĄveis, porque entendemos que essa escolha nos trarĂĄ benefĂcios futuros. Esperamos uma contrapartida apropriada.
E o que acontece se ignorarmos os preceitos da reciprocidade?
O isolamento era uma punição adequada em comunidades arcaicas. Afinal, aquele que recebe, mas não retribui, acaba se tornando um elo disfuncional.
Podemos dizer que a situação nĂŁo mudou muito no contexto atual… Se falhamos ao demonstrar reconhecimento por um benefĂcio que nos foi ofertado, somos vistos como ingratos, rudes, arrogantes, sanguessugas!
TambĂ©m acabamos “isolados”. NĂŁo tĂŁo enfaticamente quanto em tempos remotos, mas sentimos os efeitos do afastamento — no trabalho, nas amizades, no relacionamento amoroso, enfim, nas mais bĂĄsicas interaçÔes sociais que experimentamos no dia a dia.
Reciprocidade na pråtica: exemplos de aplicação da regra
Um amigo o convida para um jantar em sua casa. VocĂȘ comparece, talvez levando uma garrafa de vinho ou uma sobremesa. Elogia itens de decoração do lugar, agradece a refeição e diz algo como “na prĂłxima, serĂĄ na minha casa”.
Em todas as suas atitudes, vocĂȘ se preocupou em ser recĂproco. Suas açÔes foram guiadas pela necessidade de espelhar a gentileza e hospitalidade que recebeu.
O mesmo ocorre quando vocĂȘ se preocupa em enviar felicitaçÔes de aniversĂĄrio — especialmente Ă queles que jamais esquecem a data do seu. Ou comprar presentes, para retribuir algum item ou favor que lhe foi oportunizado.
NĂŁo Ă© complicado entender as engrenagens da reciprocidade, nos exemplos mais banais. Mas estamos tĂŁo acostumados a usĂĄ-la como guia de conduta que, por vezes, nem percebemos como o mecanismo atua em circunstĂąncias indiretas.
Foi, precisamente, a nuance menos Ăłbvia do imperativo da reciprocidade que instigou o psicĂłlogo Robert Beno Cialdini a conduzir uma pesquisa.
Em seu livro “As armas da persuasĂŁo: como influenciar e nĂŁo se deixar influenciar”, ele dedica um capĂtulo inteiro Ă anĂĄlise da reciprocidade como elemento capaz de nos induzir a escolhas — nem sempre vantajosas.
Quando a reciprocidade Ă© usada para nos manipular
Cialdini apresenta vĂĄrios estudos e depoimentos, que nos fazem enxergar a reciprocidade como um poderoso recurso persuasivo.
Menciona, por exemplo, a estratégia de empresas que oferecem amostras gråtis de seus produtos.
Em corredores de supermercados, Ă© comum encontrarmos promotores de venda, que distribuem degustaçÔes de diferentes gĂȘneros alimentĂcios. Cialdini afirma que, apĂłs aceitarmos a gentil oferta, nos sentimos mal se nĂŁo comprarmos o item — ainda que nĂŁo tenhamos gostado!
NĂŁo Ă© preciso recorrer ao autor para chegar a essa conclusĂŁo. Lembre das vezes que vocĂȘ jĂĄ passou por essa situação. Certamente, vocĂȘ nĂŁo efetuou a compra em 100% das vezes. Mas demonstrou interesse (ou evitou passar novamente pelo corredor em questĂŁo, para evitar um “constrangimento”).
A pertinĂȘncia da regra tambĂ©m foi constatada num estudo que avaliava o comportamento do consumidor quando o garçom, ao entregar a conta, adicionava um bombom.
As gorjetas aumentaram em 3,3%. O aumento foi de 14%, quando 2 bombons eram ofertados.
Dentre outros tantos exemplos demonstrados por Cialdini, hĂĄ um depoimento que se destaca.
Ele narra a experiĂȘncia de uma aluna que, certa vez, estava num estacionamento, buscando dar partida no carro, sem sucesso.
Um rapaz se aproximou e ofereceu ajuda. Ele conseguiu resolver o problema, apĂłs dar uma carga na bateria do carro.
Agradecida, a mulher disse que, se algum dia, ele precisasse de um favor, estaria pronta a retribuir.
Um tempo depois, o rapaz bate Ă sua porta. Pede seu carro emprestado, por algumas horas, pois o dele estava na oficina.
Ainda que relutante — pois o carro era novo e o rapaz aparentava pouca idade —, ela se viu vencida pelo senso de obrigação em quitar a dĂvida.
O Ămpeto da reciprocidade cobrou alto preço: o jovem, que era menor de idade e nĂŁo possuĂa seguro, destruiu o carro emprestado.
Por que essa mulher aceitou uma troca de favores tĂŁo desproporcional?
“Uma razĂŁo importante envolve o carĂĄter altamente desagradĂĄvel da sensação de dĂvida. Quase todos nĂłs achamos pĂ©ssimo estar em um estado de obrigação. Ficamos oprimidos e queremos nos livrar disso”, explica Cialdini.
O medo de sermos repudiados, em virtude de ignorarmos a norma da reciprocidade, pode nos levar a atos irracionais e prejudiciais.
O caso exposto pelo psicólogo é bastante extremo. Mas, até mesmo por isso, serve como um alerta. Nosso comportamento é condicionado por håbitos culturais que, nem sempre, percebemos com clareza.
NĂŁo hĂĄ dĂșvidas de que a manutenção de atos recĂprocos deixa o convĂvio mais confortĂĄvel e prazeroso. PorĂ©m, dada sua aceitação tĂŁo arraigada, pode se transformar num artifĂcio capaz de nos ludibriar.
Gentileza ou estratégia de persuasão?
Um pouco de desconfiança não faz mal a ninguém. Especialmente em transaçÔes comerciais.
A oferta de brindes, bÎnus ou mesmo um singelo cafezinho, são estratégias muito praticadas por vendedores, para nos conduzir a compras que não representam nossos reais interesses.
Para aguçar sua percepção em relação Ă s diferenças entre generosidade genuĂna e intençÔes menos “nobres”, comece a observar seu prĂłprio comportamento enquanto “doador”.
VocĂȘ compra um belo presente, esperando receber alguma recompensa equivalente? Faz uma concessĂŁo ao seu parceiro amoroso, para tirar vantagem, futuramente? Oferece conselhos, como forma de obter controle sobre as decisĂ”es de outra pessoa? Faz um agrado ao seu vizinho ou colega de trabalho, porque objetiva pedir um favor?
Gentileza gera gentileza. Ă um bom lema. Pratique-o, seja grato, permita que a reciprocidade siga seu curso. Mas nĂŁo abra mĂŁo do bom senso.

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