quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

POR QUE NÃO RECEBEMOS MAIS?

 

POR QUE NÃO RECEBEMOS MAIS?

Porque muitas vezes nos cansamos de pedir.

Agimos como filhos rebeldes que ficam emburrados

diante de um não dos pais ou diante de uma

correção. Como filhos, temos que pedir sempre, sem

jamais desanimar, pois quem sabe que tem um Pai que

o ama não vive como filho bastardo ou rebelde, mas

reconhece sua pequenez diante da grandeza de Deus.

O papa Francisco diz: “Todos experimentamos

momentos de cansaço e desânimo, principalmente

quando nossa oração parece ineficaz”. Mas Jesus nos

garante: “Diferente do juiz desonesto, Deus ouve prontamente

seus filhos, mesmo que isso não signifique que

o faça nos tempos e da maneira que nós queremos. A

oração não é uma varinha mágica!”.

A parábola evangélica de Lc 18,1-8 contém um

ensinamento importante: “a necessidade de rezar sempre,

sem jamais se cansar” (v. 1). Portanto, não se

trata apenas de rezar algumas vezes, quando sentimos

vontade. Não, Jesus diz que é preciso “rezar sempre,

sem jamais se cansar”. E apresenta o exemplo da viúva

e do juiz.

O juiz é um personagem poderoso, chamado a

emitir sentenças baseadas na Lei de Moisés. Por isso

a tradição bíblica recomendava que os juízes fossem

pessoas tementes a Deus, dignas de fé, imparciais e

incorruptíveis (cf. Ex 18,21). Ao contrário, este juiz

“não temia a Deus, nem respeitava homem algum”

(v. 2). Era um juiz iníquo, sem escrúpulos, que não

observava a Lei, mas fazia o que queria, segundo seu

interesse.

A ele se dirige uma viúva para ter justiça. As

viúvas, junto com os órfãos e os estrangeiros, eram

as categorias mais frágeis da sociedade. Os direitos

assegurados a eles pela Lei podiam ser pisados com

facilidade, porque, sendo pessoas sozinhas e sem defesa,

dificilmente recebiam apoio: uma viúva, ali, sozinha,

não era defendida por ninguém, podiam ignorá-la,

não eram justos com ela. Assim era também o órfão,

o estrangeiro, o migrante.

Diante da indiferença do juiz, a viúva recorre à sua

única arma: continuar insistentemente a importuná-lo,

apresentando-lhe seu pedido de justiça. E justamente

com esta perseverança alcança o objetivo. O juiz,

de fato, em um certo ponto, escuta-a, não porque é

movido por misericórdia, nem porque a consciência

o impõe. Ele simplesmente admite: “Mas esta viúva já

está me importunando. Vou fazer-lhe justiça, para que

ela não venha, por fim, a me agredir!” (v. 5).

Dessa parábola Jesus tira duas conclusões: se a

viúva conseguiu dobrar o juiz desonesto com seus

pedidos insistentes, quanto mais Deus, que é Pai bom

e justo, “não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e

noite gritam por ele?”. E, além disso, não “vai fazê-los

esperar”, mas agirá “bem depressa” (vv. 7-8).

Por isso, Jesus exorta a rezar “sem jamais se cansar”.

Todos nós experimentamos momentos de cansaço

e desânimo, principalmente quando nossa oração

parece ineficaz. Mas Jesus nos garante: diferente do

juiz desonesto, Deus ouve prontamente Seus filhos,

mesmo que isso não signifique que o faça nos tempos

e da maneira que nós queremos. A oração não é uma

varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus e

a confiar Nele, mesmo quando não compreendemos

a Sua vontade. Nesse sentido, o próprio Jesus – que

rezava muito – é um exemplo para nós.

A Carta aos Hebreus recorda que “Ele, nos dias de

sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte

clamor e lágrimas, àquele que tinha poder de salvá-lo

da morte. E foi atendido, por causa de sua piedosa

submissão” (5,7). À primeira vista, esta afirmação parece

improvável, porque Jesus morreu na cruz. A Carta aos

Hebreus não erra: Deus verdadeiramente salvou Jesus

da morte, dando-Lhe sobre ela a completa vitória, mas

o caminho percorrido para obtê-la passou através da

própria morte!

A referência à súplica que Deus ouviu diz respeito

à oração de Jesus no Getsêmani. Tomado por uma angústia

profunda, Jesus reza ao Pai para que o liberte do

cálice amargo da paixão, mas a Sua oração é permeada

pela confiança no Pai e se confia sem reservas à Sua

vontade: “Porém – diz Jesus – não seja feito como eu

quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). O objeto

da oração passa em segundo plano; o que importa,

antes de tudo, é a relação com o Pai. É isso que a

oração faz: transforma o desejo e o modela segundo

a vontade de Deus, qualquer que seja, porque quem

reza aspira, antes de tudo, à união com Deus, que é

Amor misericordioso.

A parábola termina com uma pergunta: “Mas o

Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar

fé sobre a terra?” (v. 8). E com essa pergunta todos

nos colocamos em vigilância: não devemos desistir

da oração, mesmo que ela não seja correspondida. É

a oração que conserva a fé, sem ela a fé vacila! Peçamos

ao Senhor uma fé que se faz oração incessante,

perseverante, como aquela da viúva da parábola. Uma

fé que se nutre do desejo da Sua vinda. E na oração

experimentamos a compaixão de Deus, que, como um

Pai, vem ao encontro de Seus filhos pleno de amor

misericordioso.

 

Pe. João Marcos Polak

Nenhum comentário:

Postar um comentário